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sexta-feira, 23 de outubro de 2015



Tênis X Frescobol - Rubem Alves

    Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

     Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele:
Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: "Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?". Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar. Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim,
que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra – é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: "Eu te amo, eu te amo...". Barthes advertia: "Passada a primeira confissão, 'eu te amo' não quer dizer mais nada". É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: "Erótica é a alma".

     O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

    O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...

     A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá. Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:

     Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: "Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo". A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: "Tens razão, minha querida". A situação está salva e o ódio vai aumentando.

     Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.
Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim

domingo, 11 de outubro de 2015


Lá no fundo, você já sabia que ele era um babaca - Sílvia Marques



Embora escreva o atual texto sob o ponto de vista feminino, esclareço logo de cara que este artigo também se refere a mulheres babacas. Sim, elas existem e por alguma razão, muitas vezes, são as preferidas dos homens da mesma forma que os cafajestes são o tipo preferencial das mulheres. Mas este gosto por gente que não vale a pena ficará para outra publicação...vamos aos babacas?
Você investiu na relação. Dedicou seu tempo, seu carinho, engavetou projetos pessoais para abrir espaço para os projetos novos, para os projetos a dois. Você se tornou a melhor amiga dele e recebeu em troca pessimismo e críticas ridículas no estilo “não sei como uma escritora digita com um dedo só!”. Convenhamos! Comentário completamente desnecessário.
Você sempre foi mão aberta com ele e mesmo ganhando pouco nunca foi mesquinha na hora de dar presentes e sempre fez questão de dividir as contas. Mas ele implicou com a taça de vinho branco que você quis tomar no meio da tarde, durante uma viagem que deveria ser romântica.
Você o elogiou calorosamente , motivando-o em seus projetos, por mais bobos que eles te parecessem. Ele se importou mais em elogiar suas pseudo amigas. Vai além. Te critica para terceiros enquanto você elogia o seu potencial.
Você é uma defensora do livre pensamento, da filosofia e das minorias discriminadas. Ele é um racista assumido. Você não tem medo de correr riscos. Ele tem medo de tudo. Você sublima os defeitos dele , mas ele não sublima os seus. Você perdoa e justifica o seu medo, a sua falta de cortesia, mas ele não sublima o fato de você segurar uma taça de vinho branco da forma errada. Comer assistindo TV nem pensar! É o máximo da grosseria. Educado para ele é elogiar a aparência de outras mulheres enquanto diz que você está gorda. Claro que a crítica é feita na forma de brincadeira para você não ter o direito de reclamar.
E quando você reclama disso tudo e propõe um olhar mais generoso para a relação, ele concorda contigo num primeiro momento e no segundo afirma que vocês não darão certo juntos. Que ele sempre te amou, te admirou e te respeitou, mas você não consegue perceber isso.
Sim, provavelmente este casal não daria certo mesmo. E depois de muito sofrimento, lágrimas e antidepressivos , esta mulher que cometeu o pecado mortal de ter 2 quilos acima do peso e segurar a taça de vinho de forma impolida, percebe que ela não sente raiva do ex. Ela sente raiva dela mesma porque lá no fundo, ela já sabia que ele era um babaca e por alguma razão permitiu ser subjugada.

domingo, 9 de agosto de 2015



Haja Paciência - Cora Ronái


Não posso me queixar das pessoas que frequentam a minha página no Facebook: a maioria é tão simpática que, em geral, nem sei como retribuir tanta gentileza. É verdade que só têm acesso à área de comentários os meus amigos e os amigos dos meus amigos, mas ainda assim esse contingente chega a vários milhares. É verdade também que isso limita um pouco o espectro de opiniões manifestadas, já que dificilmente alguém busca a amizade virtual de quem pensa de forma muito diferente da sua — mas o mundo está tão polarizado que nem tenho certeza se isso é mesmo uma desvantagem.


Às vezes algum governista desgarrado se queixa, contrariado, perguntando que espécie de democracia eu proponho se não abro os comentários para todo mundo. A resposta é simples: proponho uma democracia absoluta, em que cada um tem o direito de dizer rigorosamente o que quiser... na sua própria página.

O Facebook em si é um espaço público, uma grande praça aberta para todos; as páginas individuais, porém, são espaços privados, ainda que seus proprietários sejam figuras públicas. Como as mídias sociais são um território novo, em plena fase de formação, ainda há muita confusão em relação aos limites desses espaços; mesmo pessoas educadas, que ficariam horrorizadas diante da simples ideia de invadir a minha casa e cuspir nas minhas visitas, acham-se no direito de entrar na minha página aos pontapés, dirigindo cusparadas virtuais a torto e a direito.

A proposta de grandes debates civilizados online é bonita e democrática, mas é igualmente utópica, e este não é um problema apenas brasileiro. Em qualquer parte do mundo, os temas mais triviais descambam para discussões assassinas que não levam a nada, até porque não são trocas de ideias, e sim tentativas de fazer prevalecer um ou outro ponto de vista. E haja xingamentos e recriminações!

O fato é que, nas mídias sociais, todos se ofendem por tudo.Muito.O tempo todo.
Daqui a pouco vai ser impossível dar “Bom dia” sem que os que preferem a tarde ou a noite não se sintam mortalmente insultados.

Costumo publicar no Instagram pequenos textos com pensamentos que, em tese, teriam passado pela cabeça dos meus gatos. São — nem preciso dizer — simples exercícios de imaginação, que servem como legendas para as fotos, e vêm invariavelmente entre aspas, para que fique claro que foram escritos como supostas citações. Essa semana escrevi um para a Lolinha:

“Dizem que os cães não conseguem ver cores. Faz sentido. Eles não são gatos, coitados. Têm suas limitações.”

A crença de que os cães não enxergam cores caiu há tempos, mas achei que a Lolinha preferiria manter a noção anterior. Como boa gata que é, ela deve se sentir infinitamente superior aos cães; gatos sempre se sentem infinitamente superiores.
Compartilhei foto e legenda no Facebook. Pois não é que donos de cães se meteram em brios?

“Coitado, eu diria, é de quem não dá valor aos seus animais de estimação” escreveu um deles; “gatos, cães, bois, leões, que importa como enxergam? Todos são lindos e todos são perfeitos. Ah, os gatos não enxergam todas as cores, têm limitações também”, escreveu outro.

Tive quer apagar alguns comentários mais exaltados.
Eu estava voltando de São Paulo e peguei o Aeroporto de Congonhas fechado. Caos absoluto, voos cancelados, atrasos horrendos. Fui publicando pequenas atualizações de status. Finalmente, quando embarquei, descrevi a situação em que me encontrava:
“Estou num assento do meio. E atrás de mim há uma criança aos berros. Às vezes a nossa paciência é testada de formas bizarras...”

Pronto!

Fui chamada de fresca e de insensível, e incontáveis pessoas fizeram questão de sacudir o dedo metafórico no meu nariz, me ensinando que crianças sentem dor de ouvido durante o voo — embora, é claro, o avião ainda não tivesse decolado, ou o texto não poderia ter sido postado.

“Se não quer ficar perto de crianças vai de transporte individual, acho ridícula essa postura!” — e por aí vai. Ficou tão esquisita a coisa que acabei bloqueando meia dúzia de pessoas para manter a minha sanidade mental. Até agora ainda não consegui descobrir o que há de ofensivo em constatar que assentos do meio e crianças aos berros são testes de paciência.

A morte do leão Cecil, que tanta tristeza causou, está tendo, afinal, alguns aspectos positivos. Botswana proibiu a caça esportiva, algumas companhias aéreas passaram a se recusar a transportar troféus de caça e a Assembleia Geral das Nações Unidas se propôs a trabalhar junto com os países africanos para tentar acabar com a mortandade de animais. O mais importante é que esta aberração psicopata chamada caça veio para o centro das discussões, e com intensidade suficiente para que políticos e empresas do mundo inteiro percebam que é uma atividade cada vez menos popular.

Enquanto isso, no Facebook, os eternos justiceiros morais continuam patrulhando as pessoas que lamentam o assassinato do pobre leão, alegando ser hipocrisia chorar o Cecil e não os incontáveis animais anônimos que continuam a ser dizimados. Do alto da sua obtusidade e má fé, não percebem que, justamente por ter nome e biografia, Cecil pode deixar de ser estatística para se transformar em símbolo.
Que preguiça, viu.


*Fonte: O Globo

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Manual prático de como ser uma vagabunda - Carlos Mion 
     Nasça. Nasça mulher, ou pelo menos torne-se uma depois. Viva a sua vida, experimente, faça o que qualquer um pode fazer. Seja apenas você mesma. E não tropece! Se cometer qualquer erro. Pronto, essa vagabunda já está fazendo cagada.
     Seja difícil, não fique com qualquer um, e quando alguém tentar ficar com você, a força ou não, resista, continue com a sua filosofia de vida e diga não quero. Pronto, essa vagabunda não quer ficar comigo. 
     Seja fácil, fique com qualquer um. Se der vontade vá mais longe, explore seu apetite sexual, mesmo que seja favorável ou não a você. Encontre alguém, converse um pouco, transe com ele. Pronto, transei fácil com essa vagabunda.
     Namore um homem egoísta e machista, dedique-se a ele. Submeta-se e respeite sua autoridade fictícia. Tenha apenas ele como exemplo de masculinidade. Converse e seja simpática com algum amigo seu que seja homem. Pronto, essa vagabunda já está dando moral pra esse cara!
     Case-se. Viva intensamente a relação até perceber que o homem da sua vida é chato, rotineiro, sem graça, preguiçoso, egocêntrico. Sinta-se mal por isso e depois decida por romper o que não mais dá certo. Busque vida nova. Recomece. Pronto, essa vagabunda quer me largar depois de tudo o que eu fiz por ela. 
     Seja mãe, por querer ou sem querer, mas seja mãe. Seja abandonada social e emocionalmente por aquele que contribuiu com tudo. Perceba que sua vida continua, e tem que continuar. Crie novas esperanças. Volte a se relacionar. Conheça pessoas novas. Pronto, essa vagabunda já tem filho, não presta para namorar. 
    Seja o que você for, seja o que você quiser ser, querendo ou não, a sociedade colocará você onde ela quiser. Não importa o caminho que você siga, a forma como as pessoas interpretam suas ações depende mais delas e da cultura em que estão inseridas do que do fato de você ter agido certo ou errado. É difícil, eu sei que é, mas o que eu tenho a sugerir para você, mulher, é que evite definir-se pelo que falam e pensam de você. Afaste-se de quem vive da máscara da santidade e possui atitudes de verme. Não é errado as pessoas terem opinião sobre o que é certo ou errado, bom ou ruim, o que é inaceitável é que essas pessoas queiram definir outras pessoas com base nos seus “achismos” e pré-conceitos mais primitivos. Não espere aceitação de ninguém, mas exija respeito sempre! Se você não fizer isso por você, pouquíssimos farão.
    Se você for ligar para o que é que vão falar, você não vai fazer nada. Pior ainda se se culpar por uma culpa que não é sua. Resista!

domingo, 14 de junho de 2015



Liberdade é quando você decide não ficar com alguém só por ficar - Rebeca Bedone

Pronto. Passou o dia dos namorados e você não surtou porque está sozinho. É que já reconheceu que está só porque quer. Se quisesse apenas suprir a sua solidão, estaria com qualquer pessoa. Mas não, você não quer mais ficar com alguém só por ficar. Essa fase já passou.
Hoje você não quer se envolver com uma pessoa que só queira curtição e que não esteja disposta a ter algo mais sério contigo. Que não tenha interesse pelos seus pensamentos, pelas suas dúvidas e por seus segredos. Sim, você não tem mais medo da solidão. Você só deseja alguém que queira receber todo amor que existe dentro de você. E se isso for pedir muito, você continuará procurando.
Hoje você já nem se importa tanto por estar sozinho, pois sabe que essa é uma fase necessária na sua vida. O que te deixa entediado são as pessoas que se importam com isso. Aquela amiga da sua mãe que se lamenta por você não ter casado ainda — ou de novo —, ou aquela tia-avó que vive perguntando quando você terá um filho, “O tempo está passando…”, ela diz.
Sim, o tempo passa. Mas enquanto ele corre, você faz muitas coisas. Viaja, conhece novas pessoas e aprende o que nunca teria aprendido se não fosse destemido; mesmo não sendo fácil. Descobre que estar sozinho não é a mesma coisa que ser solitário. Quando você decidiu não ficar mais com alguém só por ficar, descobriu que é autossuficiente. Você não precisa de alguém para preencher o seu vazio, pois a sua felicidade está nos seus projetos, nas pessoas que estão próximas a você, no seu animal de estimação e nos seus sonhos. O que você deseja, realmente, é compartilhar essas coisas com alguém.
Mas vira e mexe dá uma saudade enorme de dormir de conchinha, de ter alguém para quem levar o café da manhã na cama e de receber uma ligação melosa no fim do dia. Nessas horas, você até se questiona se o seu caminho deve ser esse mesmo. Então, descobre que a liberdade tem seu preço.
Ser livre para amar e ser amado custa entendimento e coragem. Deixar o amor chegar espontaneamente pode causar espanto para quem tem pressa, mas traz leveza àquele que não se deixa aprisionar por expectativas alheias. Isso até parece coisa de gente complexa, mas, na verdade, é muito simples. A vontade de se sentir inteiro é muito maior do que se contentar com meias vontades. Como a meia atenção de alguém que nunca tem tempo para lhe escutar, ou o meio amor de quem está contigo somente por obrigação.
O que você quer é alguém que goste de você pelo que você é, e queira ficar do seu lado porque curte a sua companhia, ouve os seus delírios e ri das suas manias. Alguém que seja a inspiração para os seus poemas, aquela pessoa que entra na sua morada como entram as flores, a música e a poesia.
Alguém que seja livre e dê importância às conquistas do casal em conjunto e separados. Porque para ser feliz a dois, é preciso ser feliz em unidade, também. É preciso ter vida própria além da vida juntos. E amar um ao outro significa respeitar os amigos de infância, o futebol dele e a academia dela. Amar um ao outro é ter consciência das dificuldades e ter vontade de melhorar a cada dia. Amar é praticar o perdão e a paciência.
Acontece que, quanto mais o tempo passa e você se acostuma com a sua independência, mais inseguro você fica em relação ao amor. “Ele existe mesmo? Será que irei reconhecê-lo quando ele chegar?”
É por isso que você continua só.
Primeiro, porque você quer. Segundo, porque ainda não encontrou aquela pessoa que fará valer a pena deixar de estar sozinho.

quinta-feira, 11 de junho de 2015


Seja a mulher da sua vida - Leticia Flores

E seja agora! Mas, não, não seja para os outros… nem por eles. Seja sua e por você. Vá na frente, dê o primeiro passo, mude de vida sem pedir a opinião dos outros, sem pedir a
 permissão do mundo. Descubra-se. Entenda-se. Faça terapia e, quando não der, faça compras. Seja inconsequente e pague por isso. Fique bêbada e pague a conta. Abra a porta do carro, banque uma rodada de choppe e, quando o dia não for de festa, simplesmente diga não. Diga não sem culpa, mas não sem educação. Seja breve na fala e detalhista no pensamento. Aperte firme a mão das pessoas. Sorria. Seja a frente de batalha da sua vida, sem colete à prova de balas. A vida, minha amiga, não é à prova de

imprevistos. Não tenha filhos e, se tiver, permita-se ser a mãe que a natureza te formou para ser. Escolha. Viaje. Decida. E, quando ficar em dúvida, simplesmente admita. Venda seu carro, compre uma Komb.  Ou, então, financie seu carro zero. Mude. De quarto, de casa, de roupa, de sonhos. Solte as mãos, abra os braços, corte o cordão que te prende ao passado. Não espere, vá. Leia, escreva, escute. Pare de assistir a novelas. Discuta, dispute, desculpe. Seja íntima de si mesma.


    Seja a mulher da sua vida. Seja só sua. E não o faça de fachada, não tente impressionar. Impressione-se com a vida. Observe uma borboleta, alimente um gato, acaricie um cachorro. Permita-se ser sensível. Chore. Ser a mulher da sua vida não é ser mais homem, ser a mulher da sua vida é olhar-se no espelho e sentir orgulho do seu próprio sorriso. É respeitar suas próprias decisões em detrimento da opinião dos outros, mesmo que esses outros sejam a sua família. Ser a mulher da sua vida não é ser durona. Faça ioga ou boxe, mas faça o que você gosta. Descubra-se de novo. Perceba o que mudou. Você muda, o mundo muda; mas você muda, não muda nada. Corte os cabelos, nasça de novo. Ajude desconhecidos e aproveite milimetricamente o doce sabor de fazer a diferença na vida de alguém. Mas, antes disso, faça a diferença na sua vida!
     Dirija o carro, pague o almoço, ponha o pau na mesa. Sim, você tem um pau bem grande chamado “amor próprio” e ele não está no meio das suas pernas, não. Ame-se. Ame-se muito. Ame-se acima de tudo. E depois de se amar tanto, ame-se mais um pouco. Ame-se sem maquiagem e sem estar em forma, porque do que adianta os elogios de outra pessoa se você mesma não enxerga sua beleza? Enxergue-se. Vista-se de coragem. Convença-se do quão foda você é e, se você não conseguir ser sua própria advogada, é porque ainda não entendeu o que é, verdadeira e intensamente, ser a mulher da sua vida.
    Honre-se. Você não nasceu mulher à toa. Você não lutou até agora para se esconder atrás de seus próprios preconceitos. Seja a mulher da sua vida, mas não o seja pra conquistar macho ou apaixonar fêmea. Seja e pronto. E ponto.
    E conto… te conto este segredo, que ao compreender este texto você encontrou o seu só seu (re)começo.

terça-feira, 2 de junho de 2015



Vida de Solteiro - Rafael Magalhães


“E a namorada?” Alguém vai me perguntar. Aí vou sorrir e responder: “Estou solteiro!”. E logo depois vem aquela cara de: “nossa, coitadinho”, quando ao meu ver era a hora certa da pessoa me abraçar e pularmos gritando: “Parabéns Campeão!” Sabe, realmente não entendo essas pessoas que colocam o fato de encontrar uma pessoa como sendo um dos objetivos primordiais da vida. Como se a ordem natural fosse: nascer, crescer, conhecer alguém e morrer.
A meu ver, não é assim. As pessoas se dizem solteiras como quem diz que está com uma doença grave, alguém que precise de ajuda. Não é nada disso. Existe sim vida na “solteridão”! E das boas. E isso não quer dizer farra, putaria, poligamia ou promiscuidade. Aliás, quer dizer sim, mas só quando você tiver afim. No mais quer dizer liberdade, paz de espírito, intensidade. E olha que escrevo isso com algum conhecimento de causa, já que tenho vários anos de namoro no currículo.
De verdade, do fundo do coração, eu estou muito bem solteiro. Acho até que melhor que antes. Gosto de acordar pela manhã sem saber como vai terminar meu dia. Gosto da sensação do inesperado, da falta de rotina e de não ter que dar satisfação. Gosto de poder dizer sim quando meu amigo me liga na quinta-feira perguntando se quero viajar com ele na manhã seguinte. De chegar em casa com o Sol nascendo. De não chegar em casa as vezes. De conhecer gente nova todos os dias. De não ter que fazer nada por obrigação. De viver sem angústia, sem ciúme, sem desconfiança. De viver.

Acredito que todo mundo precisa passar por essa fase na vida. Intensamente inclusive. Sabe, entendo que talvez essa não seja sua praia. Ou talvez você nunca vá saber se é. Eu mesmo não sabia que era a minha, e veja só você, hoje sou surfista profissional. O que percebo são pessoas abraçando seus relacionamentos como quem segura uma bóia em um naufrágio. Como se aquela fosse sua última chance de sobrevivência. Eu não quero uma vida assim. Nessa hora talvez você queira me perguntar: “Mas e aí? Vai ficar solteirão para sempre? Vai ser assim até quando?” E eu vou te responder com a maior naturalidade do mundo: “Vai ser assim até quando eu quiser”.
Quando encontrar alguém que seja maior que tudo isso, ou talvez alguém que consiga me acompanhar. E não venha me dizer que aquele relacionamento meia boca seu é algo assim. O que eu espero é bem diferente. Quando se gosta da vida que leva, você não muda por qualquer coisa. Então para mim só faz sentido estar com alguém que me faça ainda mais feliz do que já sou, e como sei que isso é bem difícil, tenho certeza que o que chegar será bem especial. E se não vier também está tudo bem sabe? Eu realmente não acho que isso seja um objetivo de vida. Não farei como muitos que se deixam levar pela pressão dessa sociedade.
Tanta gente namorando pra dizer que namora, casando pra não se sentir encalhado, abdicando da felicidade por um status social. Aí depois vem a traição, vem o divórcio, a frustração e todo o resto tão comum por aí. Não, não. Me deixa quietinho aqui com minha vida espetacular. Pra ser totalmente sincero com você, a real é que não é sua situação conjugal que te faz feliz ou triste.

Conheço casais extremamente felizes e outros que estão há anos fingindo que dão certo. Conheço gente solteira que tem a vida que pedi para Deus e outros desesperados baixando aplicativos de paquera e acreditando que a(o) ex era o grande amor e que perdeu sua grande chance. Quanta bobagem.
A verdade é que só você mesmo pode preencher o seu vazio, e colocar essa missão nas mãos de outra pessoa e pedir pra ser infeliz. Conheço sim vários casais incríveis, assim como tantos outros que não enxergam que estão se matando pouco a pouco. Só peço que não deixem que o medo da solidão faça com que a tristeza pareça algo suportável. Viver sozinho no início pode parecer desesperador, mas de tanto nadar contra a maré, um dia você aprende a surfar. E te digo que quando esse dia chegar, você nunca mais vai se contentar em ficar na areia. Desse dia em diante só vai servir ter alguém ao seu lado se este estiver disposto a entrar na água com você.